Conclusão Sobre os Rituais da Aurora Dourada

Um capítulo de O Templo do Rei Salomão

Uma crítica dos rituais da Ordem Externa da Golden Dawn.

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«Conclusão Sobre os
Rituais da Aurora Dourada»

Após terminar a leitura destes rituais, até mesmo para o estudante mais casual deve ficar aparente que embora eles contenham muito conteúdo instruído e erudito, além de muito do que é essencial e verdadeiro, no entanto, estão repletos e inflados com muito conteúdo tolo e pedante, afetado e deslocado, até tal ponto que a obscuridade deliberada substitui uma simplicidade lúcida. O peregrino, na maioria dos casos ignorante, é espontaneamente mergulhado em uma corrida crescente de divindades e heróis clássicos, muitos dos quais se lançaram ruidosamente sobre ele sem rima ou razão.

Conduzido, por assim dizer, a uma Sala de Julgamento em que a lei que lhe é exposta não é apenas inteiramente desconhecida, mas está escrita em uma língua que ele nem mesmo consegue ler, ele é interrogado em uma língua estrangeira e julgado com palavras que na ocasião não transmitem nem sequer um sinal de sentido para ele. À medida que os Rituais prosseguem, pode-se esperar que essas dificuldades diminuam gradualmente, mas isso está longe de ser o caso; pois, como vimos, as complexidades já envolvidas pela introdução de divindades egípcias antigas, sobre as quais é provável que o candidato tenha pouco conhecimento, são ainda mais acentuadas por uma intrusão geral por parte dos deuses, anjos e demônios dos hebreus, cristãos, macedônios e frígios, e uma profusa dispersão de símbolos; que, em conjunto, são capazes de confundir o candidato a ponto de fazê-lo deixar o templo com a impressão de que todo o ritual é uma grande piada, uma espécie de carnaval bufão de deuses que na pessoa sã só pode provocar risos; ou, por ser tão completamente incompreensível para ele, sua ignorância o faz sentir que isso está tão além dele e acima de seu próprio padrão simples de conhecimento, que tudo o que ele pode fazer é se curvar diante daqueles que possuem tal linguagem exaltada, no que diz respeito até mesmo às palavras e alfabeto os quais ele não consegue compreender ou medir.

Naturalmente, o resultado dessa obscuridade é que em ambos os casos os Rituais falham em iniciar – no primeiro caso, não sendo compreendidos, são ridicularizados; no segundo, embora igualmente incompreensíveis, são, no entanto, reverenciados. Em vez de ensinar o alfabeto por meio de caracteres simples, eles o ensinam por hieróglifos grotescos e quase impossíveis, e em vez de dar ao infante adepto uma simples boneca de pano mágica para brincar, confiada aos seus cuidados, com prognósticos terríveis e presságio de desastre, dão uma gárgula arrancada do próprio telhado daquele templo em cujo chão ele, enquanto criança, ainda está aprendendo a engatinhar. O resultado foi, como se provou na maioria dos casos, tão desastroso quanto lamentável.

Há um tempo e um lugar certo para tudo, e há um uso certo para o emprego do conhecimento, assim como há um uso errado. Quando uma criança aprendeu as regras simples de adição, subtração, multiplicação e divisão; é legítimo pedir-lhe que resolva um pequeno problema simples; mas é pura perda de tempo perguntar: “Se vinte e quatro espadilhas custam um xelim, e uma espadilha dá uma refeição para duas crianças, quantas crianças você pode alimentar por dois pence e meio?” antes de saber que um mais um é igual a dois. Se uma criança nunca é ensinada a somar um mais um, é possível que, mesmo quando adulto, o homem até o dia de sua morte olhe para o formulador da questão da espadilha de dois centavos e meio como um matemático avançado, talvez até como um “ocultista avançado”. Mas quando ele tiver aprendido o significado de um mais um igual a dois, ele descobrirá que esse vasto e impensável problema, afinal, é tão simples quanto adicionar um a um ou dois a dois.

A ostentação do conhecimento e o empilhamento de símbolos só é legítimo para o ignorante quando o objetivo é confundir com uma imagem fulgurante, e não instruir. No presente caso, o buscador da Verdade é chamado de Criança da Terra e das Trevas, e em vez de ser mostrado o belo traje de luz que ele um dia será chamado a usar, é imediatamente enrolado em uma pilha de cortinas de lantejoulas, em faixas de múmias, togas velhas e roupas íntimas descartadas do Olimpo e do Sinai, o resultado é que, a menos que sua compreensão seja tão clara quanto esses rituais são obscuros, tudo o que ele obtém é uma impressão teatral de “criação” e “faz de conta”, e um distanciamento geral das realidades da Consciência. As palavras o obcecam; ele não consegue ver que Tifão é tão necessário no Esquema Egípcio quanto Osíris; no cristão, que Satanás é apenas o gêmeo de Cristo. Eles agrilhoam a liberdade que deveriam desatar, produzindo não apenas uma dualidade, mas uma multiplicidade de ilusões; de modo que, no final, as chances são de que, em vez de conversar cara a cara com Adonai, ele se torne um pedante dirigindo-se a uma reunião com uma multidão no Albert Hall[1], racionalizando sobre qualidades irracionais.

Felizmente no caso de P. o resultado foi um pouco diferente; já mestre de um vasto depósito de conhecimento e aprendizado, ele estava menos propenso a suspirar “Minha nossa!” à exibição de pirotecnia egípcia do que muitos dos outros; de fato, por sua ajuda ele estava capacitado a fundir ao seu conhecimento um catálogo de aprendizagem disruptiva, e a partir disso acrescentar muitas palavras ao grande dicionário de linguagem mágica que ele estava tentando ansiosamente construir naquela época.

Essa construção de uma linguagem deve ser objeto de todos os rituais; devem aproximar o buscador passo a passo de sua busca, isto é, aperfeiçoá-lo na língua que um dia espera falar. Cada Ritual, seja uma letra, uma palavra, uma frase ou um volume, deve conter uma lição clara e precisa, deve deixar um rastro tão brilhante e deslumbrante que o próprio pensamento imediatamente evoca o poder vestido com seus símbolos simples, mas luminosos.

Isso é realizado com muito mais clareza no Ritual de 0=0 do que nos quatro seguintes. O candidato, o futuro Neófito, é conduzido até o Portal do Primeiro Grau, o Grau de Neófito, e momentaneamente é revelada uma visão fulgurante de Adonai, como se fosse uma língua de chama cegante das profundezas da escuridão, para mostrar-lhe que há luz mesmo nesta noite terrível pela qual ele tem que viajar. Ele descobre que embora Adonai esteja em Kether, Kether também está em Malkuth; mas os Rituais que seguem o 0=0, com exceção do Portal, que consiste mais em símbolos e suas explicações do que em ritos e cerimoniais, são mais propensos a obcecar do que a iluminar. Claro que se pode argumentar que, como constituem quatro grandes provações, é afinal uma prova maior ser colocado sob um guia falso do que sob um guia honesto. Mas, de fato, se assim for, então certamente o Neófito, Zelator, Theoricus ou Practicus deve percorrer seu próprio caminho sem a ajuda de outros; além disso, ele não deve ser tentado por outros, e quando estiver irremediavelmente enredado, ser aliviado de suas provações como o leitor de um conto de fadas que invariavelmente descobre que, após as mais monstruosas dificuldades, o herói e a heroína sempre se casam e vivem felizes para sempre. É uma prova melhor dos poderes de um nadador deixá-lo nadar sem um colete salva-vidas, apesar de ser uma prova muito maior se você ordenar que ele salte na água com uma pedra de moinho amarrada no pescoço; mas isso dificilmente é “honroso”, mesmo que no último momento você o tire da água e restaure a vida dele por meio de respiração artificial. Além disso, você não está ensinando-o a nadar ou como melhorar seus poderes de natação.

No Ritual de 1=10, o Neófito entra na primeira esfera dos Elementos, o Elemento da Terra, e imediatamente está suscetível a ser vítima das terríveis obsessões mundanas do caminho de ת. Ele viaja por este caminho escuro apenas para se tornar filho do elemento inconstante do Ar, cujo signo é a lua em constante mudança. O próximo passo o coloca sob a condição instável da Água e das influências aparentemente desequilibradas de Mercúrio. Mas se ele tiver passado pelos caminhos de ש e ר com astúcia e seriedade, ele entenderá porque é necessário entrar no grau do Elemento Água pelos caminhos do Sol e do Fogo, assim como ele entenderá em seu próximo passo porque os caminhos de ק e צ, ou seja, de Peixes e Aquário, o conduzem ao fogo de Netzach e não à Água de Hod.

O caminho que conecta Hod com Netzach é o 27º caminho do Sepher Yetzirah que responde à letra פ. É o reflexo da Esfera de Marte e é o mais baixo dos caminhos horizontais. A Chave do Tarô atribuída a este caminho é mui justamente a 16ª Chave – a Torre; que vimos no Ritual de 4=7 que representa uma torre atingida por um relâmpago, simbolizando a Torre de Babel atingida pela ira do Céu, e também o Poder da Tríade precipitando-se e destruindo as colunas de escuridão, a luz de Adonai brilhando através dos véus e consumindo os Rituais elementais dos graus de 1=10, 2=9, 3=8 e 4=7.

Teme-se que, em muitos casos, o candidato pode nunca ter percebido a necessidade dessa destruição do conhecimento superficial e do arreamento do Touro, Águia, Homem e Leão sob o deslumbrante chicote do Espírito. E descobrimos que, embora esses rituais permitissem a P. dominar uma linguagem, eles dificultavam de muitas maneiras seu progresso natural, ajudando em grande parte a obcecar sua Nephesh pelas Qliphoth – suas paixões e emoções sendo despertadas por um contínuo cortejo de Deuses nus; seu Ruach pelo fantasma das palavras mortas – pela dualidade da casca e do fruto das coisas; e seu Neschamah pelo Tetragrammaton, ou seja, ele aspirava principalmente a poderes mágicos, não para que eles pudessem acendê-lo como a chama de uma lamparina ao longo de seu caminho, mas para que eles pudessem consumir, como o fogo no altar, suas propiciações e sacrifícios a um Deus pessoal.

Assim o encontramos, por assim dizer, com um pentagrama figurando diante dele e dizendo: “Ele não está completo sem sua ponta do topo”. Isso indubitavelmente está correto, mas neste momento ele ainda não percebia que quando a Tríade Superna desce e está repousando na ponta mais alta do Pentagrama, sendo este agora o ponto de junção, que ele se torna a mais importante de todas as pontas, e que as quatro inferiores são pouco mais que suportes, pernas e braços para o corpo cuja cabeça agora usa a Coroa.

Quando o peregrino percebe que as quatro características da Esfinge, os quatro elementos, as quatro letras do Nome, apenas respondem ao quinto; então pode-se dizer que o Ritual teve sucesso em seu propósito e o iniciou, caso contrário, falhou. Não adianta (mesmo que você seja o próprio Hierofante) fingir representar יהוה antes que você perceba o que significa יהשוה.

O verdadeiro conhecimento adquirido por P. nessa época, como veremos em um capítulo posterior, foi adquirido por seu trabalho com Fras. C.S., V.N. e I.A[2].; e ele era tão ardente em sua busca pelo conhecimento que chegou ao ponto de invocar Mercúrio obtendo acesso e copiando os Rituais e Conhecimentos de 5=6 pertencentes a Fra. F. L.[3], dizendo a si mesmo: “Tudo pelo Conhecimento, até a vida, até a honra, Tudo!”.


  1. «Refere-se ao Royal Albert Hall, um centro de eventos de Londres, fundado em 1871, que opera até hoje.» ↩︎

  2. «Respectivamente, Fratres Causa Scientiæ (Julian Baker), Volo Noscere (George Cecil Jones) e Iehi Aour (Allan Benneth).» ↩︎

  3. «Em uma anotação feita por Crowley à mão em uma cópia deste livro, ele elucida que F.L. é I.A., ou seja, Allan Benneth. Talvez este tenha sido o mote de Benneth como Adeptus Minor.» ↩︎


Capítulo traduzido por Alan Willms em setembro de 2022. Foto ilustrativa de Patrick no Unsplash.

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