O Falido

Ó, ONDE estão os jardins enterraçados da Babilônia, com seus bosques poderosos erguidos até entre as nuvens? Ó, onde está o deus-sol de Rodes, cuja testa dourada estava habituada a avermelhar com o primeiro fogo da aurora, enquanto as águas em seus pés ainda estavam envoltas nas brumas da noite? Ó, onde está o Templo de Éfeso, e aqueles que clamaram a Diana? Ó, onde está o olho resplandecente de Pharos, que brilhou como uma estrela de esperança sobre as águas agitadas do mar? Crianças de monstros e de deuses, como tendes caído! pois um vendaval levantou e varreu através das portas do Céu, e precipitou-se sobre os reinos da Terra, e como uma língua de fogo que consome lambeu o artesanato do homem e encobriu tudo com o pó da decadência. Um jugo foi colocado sobre os ombros das terras antigas; e onde uma vez os pés brancos de Semíramis brilhavam entre os lírios e rosas da Babilônia, há agora o salto de cabras selvagens, e que pastam a grama esparsa que brota em tufos dos montes de areia vermelhos e amarelos, dessas colinas memoriais e silentes que marcam o local onde antes havia palácios de mármore, e de jaspe, e de jade. Ó, maldição! Ó, maldição! pois tudo é poeira e ruína; as comportas dos anos foram abertas, e o Tempo varreu como um vento impetuoso os castelos dos reis com as cabanas manchadas de lama dos pastores. Merodach se foi, e também Ea, e Ishtar já não flameja na noite, ou derruba seus beijos sobre as taças espumantes no palácio de Belshazzar. Isis, de véu escuro, partiu, e Nu já não levanta mais a barca do Sol com o sopro da aurora. Ó Amen, touro belo de rosto, onde está a tua glória? Tebas está em ruínas! Ó Senhor da alegria, ó poderoso de diademas! A coroa Sekhet caiu de tua testa, e a força de tua vida partiu, e os teus olhos são como a noite encoberta de sombras. O Olimpo é apenas uma colina árida, e Asgard uma terra de sonhos tristes. Sozinha no deserto dos anos ainda se rasteja a Esfinge, sem resposta, sem responder, inescrutável, senil, contemporânea com os éons da velhice; ainda de frente para o leste e sedenta pelos primeiros raios do sol nascente. Ela estava lá quando Quéops e Quéfren construíram as pirâmides, e lá ela se sentará quando Yahveh tiver tomado seu assento designado nos salões silenciosos do Esquecimento.

Disse o tolo em seu coração, “Deus não existe!” Mesmo assim, o homem sábio se sentou tremendo sobre as ruínas do passado, e observou com olhos temerosos a falência do Esplendor, e toda a glória do homem vítima da usura do Tempo.

Ó Deus, o que és Tu que abandonas os reinos deste mundo, assim como uma mulher promíscua abandona seus amantes noturnos; e que eles se afastam de Ti, e não se lembrem nem sentem Tua falta? Embora Tu sejas tão grande que não consigo Te entender; o Tempo foge diante de Ti, e o Espaço é como um brinquedo em tuas mãos. Ó, monstruosa vacância da vastidão! Tu me sobrepujastes, e eu estou perdido na contemplação de Tua grandeza.

Os deuses antigos mataram Ymer o gigante; e de seu sangue verteram os mares; e de sua carne, eles cavaram a terra; e as rochas foram moldadas de seus ossos; e Asgard, a bela morada dos deuses, foi construída das sobrancelhas de seus olhos; e de seu crânio foi forjado a abóbada púrpura da Imensidão; e de seu cérebro foram tecidas as nuvens velosas do céu. Mas tu és mais do que Ymer; Teus pés estão plantados mais profundos do que as raízes da Igdrasil, e os cabelos de Vossa cabeça passam velozmente o elmo do pensamento. Não, mais, muito mais; pois Tu não tens sangue, nem carne, e nem ossos; Tu (Ó meu Deus!) és nada — nada que eu possa entender pode medir-Te. Sim! nada Tu és, além da Nulidade da Nulidade da Eternidade!

Assim, os homens começaram a acreditar em NENHUM-DEUS, e a adorar NENHUM-DEUS, e a ser perseguidos por NENHUM-DEUS, e a sofrer e morrer por NENHUM-DEUS. E agora eles se torturam por Ele, como haviam de outrora se ferido com pedras no escabelo de Deus, Seu Pai; e à honra de Seu nome, e como prova de Sua existência, não construíram grandes torres da Ciência, fortalezas de vapor e de chamas, e puseram a cantar as rodas do Progresso e todos os ofícios e malícias e artifícios do Conhecimento? Eles contiveram as águas com suas mãos; e a terra puseram em correntes; e o fogo cobriram como um punhado de palha úmida; até os ventos eles apanharam como uma águia em uma rede; — embora o Espírito viva e seja livre, e eles não saibam disso, já que olham para baixo de sua Babel de Palavras sobre os campos emporcalhados de fuligem, e as florestas derrubadas, e as margens sem flores de seus rios de lama, iluminados pelo sol que brilha vermelho através das névoas cobertas de sua magia.

No entanto, aquele que contempla os céus, e exclama em voz alta: “Há NENHUM-DEUS”, é como um profeta para a humanidade; porque ele é como um bêbado na vastidão da Divindade. Melhor não ter opinião de Deus do que tal opinião qual é indigna Dele. Melhor ser envolvido no manto negro da incredulidade do que dançar com os trapos fedorentos da blasfêmia. Assim, eles aprenderam a chorar, “Para as crianças, crença e obediência; para nós homens, a solidão” — a monarquia da Mente, a majestade pandemoniacal da Matéria!

“Uma Bíblia na mesa do centro em uma pequena casa empobrece a imaginação monárquica do homem”; mas uma mulher nua chorando no deserto, ou cantando canções de frenesi a Istar na noite, do cume em ruínas do Nínive, invocando os poderes elementais do Abismo, e lançando a poeira dos séculos sobre ela, e clamando a Bel, e a Assur, e a Nisroque, e ferindo chamas a partir dos ossos queimados pelo sol de Senaqueribe com a espada senil de Sarezer e Adrameleque, é uma visão que intoxica o cérebro com o vinho espumante da imaginação, e põe os dentes a um agitar dos maxilares, e a língua a uma divisão ao paladar da boca.

Mas os homens-dos-livros mataram o Grande Deus, e os gorjeadores de palavras apertaram com seus parafusos guinchantes seu caixão. Os primeiros cristãos eram chamados de Ateus; embora acreditassem em Deus: os últimos cristãos são chamados de Teístas; embora não acreditem em Deus. Assim os primeiros Livres-Pensadores foram chamados de Ateus; embora eles acreditassem em NENHUM-DEUS: e os últimos Livres-Pensadores serão chamados de Teístas; pois eles não acreditarão em NENHUM-DEUS. Então de fato nestes últimos dias possamos voltar a encontrar o Grande Deus, aquele Deus que vive além do gorjeio dos lábios do homem, e dos murmúrios de sua boca.

Repletos com a frivolidade das palavras, estes tolos flatulentos argumentaram a respeito de Deus. Não como o bardo cantava de Ymer; mas como o gato ronrona ao rato sendo estrangulado: “Uma vez que Deus é a Primeira Causa, portanto, ele possui existência ‘a se’; portanto, ele deve ser necessário e absoluto, e não pode ser determinado por qualquer outra coisa”. No entanto, estes sábios doutores o discutem como se ele fosse um cadáver sobre as mesas de suas cirurgias, e medem o seu comprimento com suas craveiras, e o esticam e o cortam para caber na cama de sua metafísica procrusteana. Assim ele é absolutamente ilimitado de fora, e também ilimitado de dentro, pois a limitação é o não-ser, e Deus é o próprio ser, e ser é todas as coisas, e todas as coisas é nada. E assim nós encontramos Epicuro andando de braços dados, a partir do templo de palavras ventoso, com Atanásio, e entrar no mercado da vida, e a multidão dos vivos — essa grande testemunha sem língua da bondade de Deus; e se misturam com os meninos sorridentes, regando pétalas de rosa sobre Dóris e Bacchis, e mandando beijos para Mirtale e Evardis.

Deus ou Nenhum-Deus — que assim seja! O Sol ainda nasce e se põe, e a brisa da noite sopra as chamas vermelhas de nossas tochas através das palmeiras, para a frustração das estrelas. Veja! — na distância entre as poderosas patas da Esfinge silente, repousa um templo cúbico cujo deus tem sido chamado Ra Harmakhis, o Grande Deus, Senhor do Céu, mas que na verdade não tem nome e está além dos nomes, pois ele é o Espírito Eterno da Vida.

Silêncio — o sistro soa de através das margens das águas escuras. A lua nasce, e tudo é como prata e madrepérola. O apito de um pastor guincha de longe — uma criança se desviou do rebanho. ... Ó silêncio ... Ó mistério de Deus ... quão macia é a Tua pele ... quão perfumado é Teu sopro! A vida flameja como um vinho forte através de mim. O frenesi da resistência, o êxtase da luta — ah! o êxtase da Vitória. ... A própria alma da vida repousa violada, e o sopro me deixou. ... Uma mão pequena e quente toca meus lábios — Ó fragrância do amor! Ó Vida! ... Há um Deus?


Traduzido por Frater S.R.

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