O Feiticeiro

Este artigo é um capítulo de O Templo do Rei Salomão

Consecução pela magia cerimonial.

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O Feiticeiro

Antes de podermos discutir a Operação da Magia Sagrada de Abramelin, iniciada por P.[1] no outono de 1899, primeiramente é necessário que expliquemos brevemente o significado e o valor da Magia Cerimonial; e em segundo lugar, relembrando um pouco os nossos passos, revelar ao leitor os vários métodos e trabalhos que P. havia empreendido antes de começar a realizar este trabalho supremo.

Por mais de um ano ele estava vivendo perdu[2] no coração de Londres, dedicando-se vigorosamente aos vários ramos de conhecimento secreto que suas iniciações na Ordem da Aurora Dourada lhe haviam revelado. Até o momento, tratamos apenas dessas iniciações e seus métodos de Viajar na Visão do Espírito e de Ascensão nos Planos; mas ainda falta mostrar os métodos Cerimoniais que ele adotou; entretanto, antes de tratarmos disso, devemos retornar ao nosso primeiro ponto, a saber — o significado e o valor da Magia Cerimonial.

A Magia Cerimonial, como meio de consecução, tem em comum com todos os outros métodos, ocidentais ou orientais, um único objetivo supremo em vista – a identificação com a Divindade; e não importa se o Aspirante é teísta ou ateu, panteísta ou autoteísta, cristão ou judeu, ou se ele chama o objetivo de sua consecução Deus, Zeus, Cristo, Matéria, Natureza, Espírito, Céu, Razão, Nirvana, Asgard, Coisa-Nenhum ou Deus-Nenhum, desde que ele tenha um objetivo em vista, e um objetivo que ele esteja se esforçando para alcançar. Sem um objetivo, ele é apenas um navio humano sem porto e nem destino; e, sem esforço, trabalho, VONTADE para alcançar, ele é apenas um humano à deriva, sem leme e sem mastro, jogado aqui e ali pelas ondas da loucura, para eventualmente afundar nas águas negras da loucura e da morte.

Assim, descobrimos que fora do hospício, nós, todos e cada um de nós, estamos vigorosamente ou preguiçosamente, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente, progredindo lenta ou rapidamente em direção a algum objetivo que estabelecemos como um ideal diante de nós. Siga o caminho para esse objetivo, subjugue todas as dificuldades e, quando a última for vencida, descobriremos que esse “algum objetivo” é na verdade O OBJETIVO, e que o caminho pelo qual partimos era apenas um pequeno vaso capilar que conduzia por veia e artéria ao próprio Coração da Unidade.

Então todos os caminhos levam ao mesmo objetivo? – Certamente que sim. Então, você diz: “Todas as estradas são igualmente boas?” Nossa resposta é: “Certamente que não!” Pois não é porque todos os caminhos levam a Roma que todos são do mesmo comprimento, da mesma perfeição ou igualmente seguros. O viajante que vai a pé a Roma precisa usar as próprias pernas – sua VONTADE de chegar lá; mas se ele descartar como algo inútil o conselho de quem conhece o caminho e já esteve lá, e os mapas dos países que ele tem que percorrer, ele é apenas um tolo, apenas superado em sua loucura por aqueles que tentam todos os caminhos um de cada vez e não chegam ao destino por nenhum. Assim como é com o viajante, também é para o Aspirante; ele deve começar sua jornada com o grito: “Eu alcançarei!” e não deixar nada por fazer que possa ajudá-lo a alcançar essa conquista. Ao contemplar a Grande Obra e todos os meios para alcançá-la, pouco a pouco a partir do Conhecimento que ele tem obtido ele aprenderá a extrair aquele Entendimento sutil que o capacitará a construir tais símbolos de força, tais dispositivos de poder, tais exercícios de Vontade e Imaginação, que por seu uso equilibrado, casto e sóbrio, ele DEVE ter sucesso se ele QUERER fazê-lo.

Assim vemos que pouco importa se o Aspirante, verdadeiramente o Vidente, grita “Sim” ou “Não”, desde que o faça com uma vontade, uma vontade que gerará uma Feitiçaria dentro do grito; pois como diz Lévi: “A inteligência que nega, invariavelmente afirma alguma coisa, já que está afirmando sua liberdade”.

Indaguemos agora o que é essa liberdade, mas sobretudo o que escrevermos: “Não te satisfaças com o que te dizemos; e age por ti mesmo”. E, se você agir com ousadia e coragem, você realmente ultrapassará os poderes normais da vida e se tornará uma pessoa forte entre pessoas fortes, de modo que “se dissermos a esta montanha: remova-te e lança-te ao mar, isso será feito”. Pois a terra na qual você entra é uma terra que, ao olho comum, parece uma terra fabulosa de maravilhas e milagres. No entanto, dizemos a você que não há maravilha imaginada na mente do homem que o homem não seja capaz de realizar, não há milagre da Imaginação, que foi realizado pelo homem, que não possa ainda ser realizado por ele. O sol parou em Gibeom e a lua no vale de Ajalom, e as estrelas do céu caíram sobre a terra, assim como a figueira lança seus figos verdes quando é sacudida por um vento forte[3]. O que são sóis, luas e estrelas, senão as ideias de crianças sonhadoras aninhadas no abismo de um entendimento sonolento? Para o verme cego, o sol é como o bater de asas quentes na escuridão exterior, e as estrelas não existem; para o selvagem, é como uma bola de fogo bem-vinda, e os olhos brilhantes das feras da noite: para nós, como esferas de elementos familiares da terra e há muitas centenas de milhões de milhas de distância. E para o homem daqui a dez mil anos – quem sabe? E para ele cem milhões de anos depois disso – quem se importa! Os sentidos podem ir e vir, e os cinco podem se tornar dez, e os dez, vinte, de modo que os seres daquele último crepúsculo distante podem diferir de nós, como diferimos da minhoca e das algas nas profundezas do mar. Mas chega disso – Tornai-vos Aquele Imutável, e vós saltareis além de um milhão de anos, e de cem milhões, em um piscar de olhos. Não! pois o Tempo vai estourar como uma bolha entre seus lábios; e, vendo e entendendo, o Espaço derreterá como uma gota de suor em sua testa e desaparecerá!

Ouse querer e queira saber, e você se tornará tão grande e até maior que Apolônio, Flamel ou Lúlio; e então saiba guardar silêncio, para que não caia como Lúcifer, e o brilho de seu conhecimento cegue os olhos das corujas que são os homens; e de uma grande luz brota uma grande escuridão; e a imagem sobrevive e a imaginação desaparece, e os ídolos substituem os deuses, e as igrejas de tijolo e pedra substituem os mistérios das florestas e das montanhas, e o arrebatamento que cinge os corações dos homens como um círculo de pura luz esmeralda.

Os grandes milagres aparentes da vida passam despercebidos. Nascimento e Geração são apenas as tristes brincadeiras de tolos; mas nem o mais sábio sabe como uma folha de grama brota da terra negra, ou como é que a terra negra se transforma em folhas verdes e todas as maravilhas dos bosques. No entanto, a multidão pisoteia as flores dos campos sob seus pés e ri em seus salões de prazer por causa de uma dançarina seminua, porque eles estão mais próximos de ver os mistérios da Criação do que estão na presunção de seus próprios salões abafados; e ficam boquiabertos com algum trapaceiro de palco, algum bufão leitor de pensamentos, e falam sobre o sobrenatural, o sobrenormal, o sobreterrestre, o sobre-humano e todas as outras superfluidades superficiais de supernumerários super-anuados, como se esse pobre malabarista fosse algum tipo de magista que pudesse entrar em suas cabeças duras e roubar seus pensamentos tristes, enquanto o tempo todo ele está no velho jogo de roubar seus bolsos cheios.

Os milagres são apenas as nuvens que encobrem os olhos sonhadores de homens ignorantes. Portanto, trovejemos de uma vez por todas: Não há milagres para aqueles que estão acordados; os milagres são para os sonhadores, e as maravilhas são como caramelos em um pote de vidro em uma padaria para crianças sem um tostão. Só a beleza existe para o Adepto. Em toda parte, há beleza – na papoula e no monturo sobre o qual ela balança; no palácio de mármore e nas cabanas de barro queimado pelo sol que se apoiam sem suas paredes. Para ele, as clareiras das florestas riem com alegria, assim como as sarjetas de nossas favelas. Tudo é belo, e calçado com chamas, ele corre sobre a terra e a água, através do fogo e do ar; e constrói, na teia emaranhada dos ventos, aquela Cidade onde ninguém sonha, e onde até o despertar deixa de existir.

“Mas para operar milagres devemos estar fora das condições normais da humanidade; devemos ser abstraídos pela sabedoria ou exaltados pela loucura, ou superiores a todas as paixões ou além delas pelo êxtase ou pelo frenesi. Essa é a primeira e mais indispensável preparação do operador. Portanto, por uma lei providencial ou fatal, o magista só pode exercer onipotência na proporção inversa de seu interesse material; o alquimista faz tanto mais ouro quanto mais resignado às privações, e quanto mais estima aquela pobreza que protege os segredos da magnum opus[4]. Somente o adepto cujo coração é desapaixonado disporá do amor e do ódio daqueles a quem ele faria instrumentos de sua ciência; o mito do Gênesis é eternamente verdadeiro, e Deus só permite que se aproximem da árvore da ciência aqueles homens que são suficientemente fortes e abnegados para não cobiçar seus frutos. Vós, portanto, que procurais na ciência um meio para satisfazer vossas paixões, detenha-vos neste caminho fatal; vós não encontrareis nada além de loucura ou morte. Este é o significado da tradição vulgar de que o diabo acaba mais cedo ou mais tarde estrangulando os feiticeiros. Portanto, o mago deve ser impassível, sóbrio e casto, desinteressado, impenetrável e inacessível a qualquer tipo de preconceito ou terror. Ele precisa estar sem defeitos corporais e à prova de todas as contradições e todas as dificuldades. A primeira e mais importante das operações mágicas é a consecução dessa rara preeminência”[5].

A via mystica que leva a essa preeminência pode ser apropriadamente comparada a um círculo. Por onde quer que o Aspirante aproxime, ali encontrará um caminho que leva à direita e outro que leva à esquerda. À direita o objetivo é todas as coisas, à esquerda o objetivo é coisa nenhuma. No entanto, os caminhos não são dois caminhos, mas sim um caminho; e os objetivos não são dois objetivos, mas sim um objetivo. Ao entrar no círculo, o Aspirante deve viajar por um ou pelo outro, e não deve olhar para trás; a fim de que não seja transformado em uma estátua de sal[6], e se torne a habitação dos espíritos da Terra. “Pois em teu receptáculo habitarão as Bestas da Terra”, como diz Zoroastro. O Magus viaja por ambos simultaneamente, se é que viaja; pois ele aprendeu o que significa o mistério: “Uma linha reta é a circunferência de um círculo cujo raio é infinito”; uma linha de comprimento infinito na mente do Neófito, mas que na verdade também é uma linha de infinita brevidade na do Magus, se é que é finita ou infinita.

Tendo aberto o círculo, da linha pode-se traçar qualquer curva; e se o Magus quiser, a linha será um triângulo, ou um quadrado, ou um círculo; e com sua palavra brilhará diante dele como um pentagrama ou um hexagrama, ou talvez como uma estrela de onze pontas.

Assim o Aspirante aprenderá a criar sóis e luas, e todas as hostes do céu, a partir da unidade. Mas primeiro ele deve percorrer a circunferência do círculo; e, quando misticamente descobrir que o objetivo é o ponto de partida, e onde ele entrou nesse círculo, ele também se romperá e se abrirá, de modo que o adytum[7] de seu centro se torne um arco em sua parede externa, então, de fato, ele será digno do nome de Magus.

Alguns chamaram a pedra angular deste arco de Deus, alguns de Brahma, alguns de Zeus, alguns de Alá, alguns até de IAO o Deus do nome sonoro; mas na verdade, ó buscador, ela é Teu SELF – esta dimensão superior na qual o interior se torna o exterior, e na qual só o Olho único pode ver o coração pulsante, Mestre do emaranhado de veias.

Por força do exemplo, vamos chamar essa consecução pelo nome comum de Deus (SELF em oposição ao self). E como vimos, o caminho da união com Deus ou o objetivo é duplo:

I. A consecução de todas as coisas.

II. A destruição de todas as coisas.

E qualquer caminho que tomarmos, seja à direita ou à esquerda, o método também é duplo, ou o duplo em um:

I. Exaltação pela loucura.

II. Exaltação pela sabedoria.

Na primeira, despertamos do sonho da ilusão por uma luz ofuscante que brilha em nossos olhos; na segunda, gradativamente, ao romper da aurora.

No primeiro, a luz do conhecimento, embora comparável a todo o Conhecimento como a chama de uma vela ao sol, pode ser tão repentina que a cegueira segue a primeira iluminação[8]. No segundo, embora a luz seja como o próprio sol do conhecimento; primeiro seu calor suave, e então seus raios ternos nos despertam e nos conduzem pela manhã até o meio-dia. Como filhos da alegria, levantamo-nos de nossas camas e dançamos pelos campos orvalhados, e perseguimos as borboletas que despertam das flores coradas – o êxtase é nosso. O primeiro é como um salto repentino da escuridão para a luz, da monotonia para o êxtase; o segundo, uma marcha firme além do apaixonado Oeste para a terra da eterna Alvorada.

Quanto ao primeiro, pouco temos a dizer; pois geralmente é a iluminação dos fracos. Os fracos geralmente obtêm o pouco sucesso que têm na vida, não por meio de suas tentativas de luta, mas por causa de sua fraqueza – o inimigo não considera que valem a pena a pólvora e o tiro. Mas os fortes ganham a vida na luta e na vitória; a espada é sua garantia de vida, e por suas espadas eles vão conseguir; e quando tiverem alcançado, por suas espadas governarão, e de guerreiros se tornarão como reis com elmo cujas coroas são de ferro, e cujos cetros são espadas afiadas de aço brilhante, e reinarão; enquanto os fracos ainda permanecem como escravos e presas dos sonhos selvagens da noite. Na verdade, às vezes o cocheiro fraco vence a corrida; mas, por causa de sua fraqueza, muitas vezes ele é carregado para além da linha de chegada pelos corcéis que lhe deram a vitória e, incapaz de detê-los, é arremessado contra as paredes da arena, enquanto o homem forte passa pelos juízes, vira sua carruagem e recebe a coroa da vitória, ou senão, está sempre pronto para correr novamente.

Aprender a QUERER é a chave do reino, cuja porta, como vimos, contém duas fechaduras, ou melhor, dois ferrolhos em uma fechadura, uma girando para a direita e outra para a esquerda. Ou empilhe a imaginação com imagem sobre imagem até que o próprio reino de Deus seja tomado de assalto; ou retire um símbolo após o outro até que as paredes sejam minadas e as “torres cobertas de nuvens”[9] desmoronem até o chão. Em ambos os casos o final é o mesmo – a cidade é tomada. Ou talvez se você for um grande Capitão, e seu exército estiver cheio de guerreiros, e você estiver em posse de todas as máquinas adequadas para esta luta prometeica – poderia ao mesmo tempo escalar os bastiões e minar as muralhas, de modo que, assim como os de cima saltam para baixo, os de baixo saltam para cima, e a cidade cai como uma flecha de um arco que se quebra em dois na mão. Tal guerra é apenas para o grande – para o maior; contudo veremos que esta é a guerra que P. eventualmente travou. E onde os fortes pisaram, os fracos podem ousar seguir.

Este caminho deve ser necessariamente difícil; ilusões e delírios devem ser esperados, tentações e derrotas devem ser encontradas com equanimidade, e medos e terrores superados sem tremor. Os trabalhos de Hércules são um bom exemplo dos trabalhos que o Aspirante que quer ser Adepto deve esperar. No entanto, não há espaço aqui, nem este é o lugar apropriado, para entrar em detalhes sobre as doze obras místicas deste homem que se tornou um Deus. No entanto, notemos pelo menos três pontos – que o décimo trabalho foi matar Gerião, o monstro de Hades de três cabeças e três corpos; que a décima primeira era obter maçãs do jardim das Hespérides, onde viviam as três filhas de Héspero; e que o último foi trazer à terra o cão de três cabeças Cérbero, e assim desguardar os portões de Hades[10]. O último trabalho do Adepto é similar: destruir os terrores do inferno e trazer sobre a terra a tríade Superna e formular o ש‎[11] no יהשוה.

Uma única ideia deve nos possuir, e todas as nossas energias devem estar focadas nela. Alguém que deseja ser rico deve adorar a riqueza e entender a pobreza; alguém que deseja ser forte deve adorar a força e compreender a fraqueza; e assim também alguém que quer ser Deus deve adorar a divindade e compreender a diabrura: ou seja, deve-se ficar saturado com os reflexos de Kether em Malkuth, até que a terra seja impregnada e os dois olhos se tornem um. Ele deve de fato construir sua torre pedra sobre pedra até que o cume desapareça entre as estrelas, e ele se perca em uma terra que fica além das chamas do dia e das sombras da noite.

Para atingir este Êxtase, exercícios e operações da natureza mais trivial devem ser observados, se, mesmo da maneira mais remota, pertencerem àquela única ideia.

“Sois pedinte e quereis fazer ouro: ponde-vos à obra e não cesseis mais. Eu vos prometo, em nome da ciência, todos os tesouros de Flamel e Raimundo Lúlio. ‘Que é preciso fazer primeiramente?’ É preciso crer que podeis, e, depois, agir. ‘Agir como?’ Levantar-vos todos os dias à mesma hora e cedo; lavar-vos, em qualquer estação, antes do dia, numa fonte; nunca trazer roupas sujas, e, para isso, lavá-las vós mesmos, se for preciso; exercer-vos às privações voluntárias, para melhor suportar as involuntárias; depois impor silêncio a todo desejo que não seja o da realização da Grande Obra.

‘Como? Lavando-me todos os dias, numa fonte, farei ouro?’ Trabalhareis para fazê-lo. ‘É uma zombaria!’ Não, é um arcano. ‘Como posso servir-me de um arcano que não sei compreender?’ Crede e fazei; compreendereis depois”[12].

Aqui Lévi coloca a crença como uma coroa sobre a fronte do trabalho. Ele está, de certa forma, certo; no entanto, para o indivíduo comum, essa crença é como uma carga pesada que ele não consegue nem sequer levantar, quem dirá carregar: agir como quiser. Sem dúvida, se um garoto se ocupasse o suficiente com um livro de trigonometria, acabaria apreciando a teoria e a prática dos logaritmos; mas por que ele deveria perder seu tempo? por que não procurar um mestre? Certamente, quando ele tiver aprendido tudo o que os livros didáticos podem ensinar e tudo o que o mestre pode dizer a ele, ele deve se esforçar por si só, mas até este ponto ele deve depositar sua fé em alguém. Para o Aspirante comum é necessário um Guru[13]; e o único perigo para o não iniciado é que ele pode depositar sua confiança em um charlatão em vez de em um adepto. Isso sim é um perigo, mas certamente depois de algum tempo até o mais ignorante será capaz de discriminar, assim como um cego pode distinguir entre o dia e a noite. E, se o pupilo for um verdadeiro Buscador, pouco isso importa no final. Pois, como o sacramento é eficaz, mesmo administrado por um sacerdote indigno, seu amor pela Verdade o capacitará a transformar até mesmo os maus conselhos de um patife a seu favor.

Retornando ao assunto, como esses desejos multiformes podem ser silenciados, e um único desejo ser realizado de modo que engolfe o resto? A esta pergunta devemos responder como respondemos em outro lugar – apenas por uma unidirecionalidade dos sentidos – até que o polígono de cinco lados se torne piramidal e desapareça em um ponto. A base deve ser bem estabelecida, regular e de superfície plana; pois o cume é como a base. Em outras palavras, os cinco sentidos devem ser fortes e saudáveis e sem doenças. Um homem doente é incapaz de realizar uma operação mágica, e um homem histérico provavelmente terminará nas Qliphoth ou no Bedlam[14]. Um cego não conseguirá equilibrar o sentido da visão, e nem um surdo o sentido da audição, tal como um homem que pode ver e ouvir; no entanto, a perda completa de um sentido, se este for realmente o caso, é muito melhor do que uma fraqueza mental daquele sentido.

Todos os sentidos e faculdades devem compartilhar do trabalho, tal pelo menos é o ditado da Magia Cerimonial Ocidental. E assim encontramos o magista colocando pedra sobre pedra na construção de seu Templo. Quer dizer, colocando pantáculo sobre pantáculo, e salvaguardando sua ideia única por meio de espadas, adagas, varinhas, anéis, perfumes, sufumigações, robes, talismãs, coroas, quadrados mágicos e mapas astrológicos, e mil outros símbolos de coisas, ideias e estados, todos refletindo aquela ideia única; para que ele possa construir um monte poderoso, e dele eventualmente saltar por cima da grande muralha que está diante dele como uma partição entre dois mundos.

“Todas as faculdades e todos os sentidos devem tomar parte na obra, e nada no sacerdote de Hermes tem direito de estar ocioso; é preciso formular a inteligência por signos e resumi-la por caracteres ou pantáculos; é preciso determinar a vontade por palavras e realizar as palavras por atos; é preciso traduzir a ideia mágica em luz para os olhos, em harmonia para os ouvidos, em perfumes para o olfato, em sabores para a boca, e em formas para o tato; é preciso, numa palavra, que o operador realize na sua vida inteira o que quer realizar fora de si no mundo; é preciso que se torne um ímã para atrair a coisa desejada; e, quando estiver suficientemente imantado, saiba que a coisa virá sem que ele pense e por si mesma” [15].

Isso parece bastante claro, mas esse ponto importantíssimo é explicado mais claramente ainda pelo Sr. Aleister Crowley em seu prefácio à sua edição de “O Livro da Goetia de Salomão, o Rei”:

“Não estou preocupado [escreve o Sr. Crowley] em negar a realidade objetiva de todos os fenômenos ‘mágicos’; se são ilusões, são pelo menos tão reais quanto muitos fatos inquestionáveis da vida diária; e, se seguirmos Herbert Spencer, eles são pelo menos evidência de alguma causa.

Agora esse fato é a nossa base. Qual é a causa da minha ilusão de ver um espírito no triângulo da Arte?

Todo metido a psicólogo, bem como todo especialista em psicologia, responderá: ‘Essa causa jaz em seu cérebro’.


Sendo isso verdade para o Universo comum, que todas as impressões sensoriais dependem de mudanças no cérebro, devemos incluir as ilusões, que são, afinal de contas, impressões sensoriais tanto quanto as ‘realidades’, na classe dos ‘fenômenos que dependem de mudanças cerebrais’.

Os fenômenos mágicos, entretanto, se encaixam em uma subclasse especial, uma vez que são intencionais, e sua causa é a série de fenômenos ‘reais’ chamados de operações de Magia cerimonial.

Estas consistem em

(1) Visão. O círculo, quadrado, triângulo, receptáculos, lampiões, mantos, instrumentos etc.

(2) Audição. As Invocações.

(3) Olfato. Os Perfumes.

(4) Paladar. Os Sacramentos.

(5) Tato. Conforme em (1). O círculo etc.

(6) Mente. A combinação de todos estes e a reflexão sobre seu significado.

Essas impressões incomuns (1-5) produzem mudanças cerebrais incomuns; portanto, seu resultado (6) é de tipo incomum. Portanto, sua projeção de volta ao mundo aparentemente fenomenal é incomum.

Aqui, então, consiste a realidade das operações e efeitos da magia cerimonial, e eu entendo que a apologia é ampla, na medida em que os ‘efeitos’ se referem apenas aos fenômenos que aparecem para o próprio magista, a aparição do espírito, sua conversação, possíveis choques de imprudência, e assim por diante, até o êxtase de um lado, e a morte ou loucura do outro”[16].

Assim, vemos que o Aspirante deve se tornar um ímã e atrair todos os desejos para si mesmo até que não haja mais nada fora dele para atrair; ou repelir todas as coisas, até que não haja mais nada para repelir.

No Oriente, os cinco sentidos são tratados em sua unidade, e a operação mágica torna-se puramente mental e, em muitos aspectos, mais racional e menos emocional. A vontade, por assim dizer, concentra-se em si mesma com a ajuda de um ponto reflexivo – a ponta do nariz, o umbigo, um lótus, ou ainda, de forma mais abstrata, na inspiração e expiração do alento, sobre uma ideia ou uma sensação. O Yogī abandona o método construtivo, e é assim que não o encontramos edificando, mas minando sua consciência, sendo seu instrumento puramente introspectivo, o poder de voltar sua vontade como um olho mental para si mesmo, e finalmente vendo a si mesmo como SI Mesmo[17].

No entanto, tanto no sistema Ocidental quanto no Oriental, o equilíbrio é tanto o método quanto o resultado. O Magista Ocidental deseja transformar a escuridão em luz, a terra em ouro, o vício em virtude. Ele se propõe a purificar; portanto, tudo ao seu redor deve ser puro, sempre para manter diante de sua memória a ideia única essencial. Mais grosseiramente, este é todo o princípio da propaganda. Um bom anunciante coloca seu anúncio de tal forma que não importa para onde você vá, e não importa para onde você se vire, você vê o nome do produto que ele está divulgando. Se, por exemplo, for o caso do “SBP”[18], o próprio nome se torna parte de você, e sempre que você ver um mosquito ou ouvir falar de um, “SBP” surge espontaneamente em seus pensamentos.

A vontade de um magista pode ser comparada a uma lamparina acesa em um quarto escuro e sujo. Primeiro, ele começa a limpar o quarto, depois coloca um espelho brilhantemente polido ao longo de uma parede para refletir um sentido, e depois outro espelho para refletir outro sentido, e assim por diante, até que, para qualquer lado que ele olhe, para cima ou para baixo, para a direita ou para a esquerda, atrás ou na frente, lá ele vê sua vontade brilhando; e, finalmente, tão ofuscantes se tornam os inúmeros reflexos, que ele pode ver apenas uma grande chama que obscurece tudo o mais. O Yogī, por outro lado, dispensa os espelhos e se contenta em girar o ajuste do lampião para deixar a chama cada vez mais fraca até que o quarto esteja em uma escuridão perfeita e nada mais possa ser visto ou mesmo reconhecido além do SELF.

Aqueles que passaram pelos dois caminhos místicos descobrirão que a energia despendida é a mesma em ambos. A concentração é um trabalho terrível; o simples fato de ficar parado e meditar sobre uma ideia e matar todas as outras ideias uma após a outra, e então constantemente vê-las brotar como uma Hidra de cem cabeças, precisa de um poder tão grande de resistência que, embora muitos empreendam a tarefa, poucos atingem a meta. Mais uma vez, a tensão exercida sobre um Magista Cerimonial é igualmente colossal e muitas vezes custosa; e nestes dias agitados o isolamento necessário é muito difícil de se conseguir. E assim aconteceu que uma combinação de ambos os sistemas mencionados foi finalmente adotada por P. No entanto, deve ser lembrado que o diletante da Magia Cerimonial ou do Yoga está apenas acumulando mal contra si, assim como o diletante da Bolsa de Valores. A Magia, assim como a aposta, tem suas chances; mas tanto na primeira como na segunda, sem a “vontade de trabalhar”, as chances estão sempre contra aquele que confia apenas nelas.

Há, no entanto, uma prática que ninguém deve negligenciar, exceto os mais fracos, que não são dignos de tentá-la – a prática da seleção Cética.

Éliphas Lévi nos dá o seguinte caso:

“Uma pessoa me disse um dia: ‘Queria ser um fervoroso católico, mas sou voltairiano. Quanto não daria para ter a fé!’ Pois bem, lhe respondi, ‘não digais mais: Queria; dizei: Quero, e fazeis as obras da fé; eu vos asseguro que acreditareis. Vós sois voltairiano, dizeis, e entre os diferentes modos de entender a fé, o dos jesuítas vos é o mais antipático, e vos parece, entretanto, o mais desejável e forte… Fazei, e recomeçai, sem vos desanimar, os exercícios de Santo Inácio[19], e ficareis crente como um jesuíta. O resultado é infalível, e, se então tiverdes a ingenuidade de crer que é um milagre, vós já vos enganais, crendo-vos voltairiano”[20].

Agora tudo isso pode ser bom o bastante para a Sra. Eddy[21]. Pegar emprestada uma espada de um dos antagonistas de Voltaire e enfiá-la em suas costas quando ele não está olhando é certamente uma maneira de se livrar de Voltaire. Mas o cavaleiro intelectual não deve se comportar como um patife cristão; ele deve capturar Voltaire em seus próprios argumentos, absorvendo todo o Voltaire – oitenta volumes e mais – até que não haja mais Voltaire e, ao fazê-lo, aplique a cada elo da armadura de Voltaire as presas da Serpente Pirrônica; e onde essa serpente morde e atravessa os elos, esses elos devem ser descartados; e onde seus dentes são bloqueados, esses elos devem ser mantidos. Da mesma forma, ele deve aplicar a serpente a Santo Inácio, e da combinação dos elos mais fortes de ambas as armaduras, formar para si uma cota de malha tão invulnerável que ninguém poderá perfurá-la. Assim, em vez de enterrar a razão de alguém nas areias da fé, como um avestruz, deve-se ressurgir como uma fênix da iluminação das cinzas do Livre Pensamento e do Dogma. É disso que se trata todo o Iluminismo Científico Filosófico.

Agora que terminamos nossa breve dissertação sobre os Métodos da Magia Ocidental, voltemos mais uma vez para Frater P. e vejamos como ele os aplicou em seus próprios trabalhos.

Pouco depois de se tornar membro da Ordem da Aurora Dourada, como já foi mencionado, P. conheceu um certo Frater de nome I.A.[22], um magista de poderes notáveis. Imediatamente, uma grande amizade surgiu entre esses dois, e por mais de um ano e meio eles trabalharam secretamente em Londres em vários experimentos mágicos e científicos.

Durante este período, P. aprendeu o que pode ser chamado de alfabeto da Magia Cerimonial – a saber, o funcionamento das Evocações Práticas, a Consagração e uso de Talismãs, Invisibilidade, Transformações, Desenvolvimento Espiritual, Divinação e Processos Alquímicos, cujos detalhes são tratados com em um manuscrito intitulado “Z2” Da Ordem da Aurora Dourada, que é dividido em cinco livros, cada um sob uma das letras do nome יהשוה.

Estes cinco livros mostram como o Ritual de 0°=0° pode ser usado como uma fórmula mágica. Eles são os seguintes: «continua no próximo capítulo»


  1. «Frater Perdurabo, o mote mágico de Aleister Crowley.» ↩︎

  2. «Francês para “perdido”, “escondido”.» ↩︎

  3. «“Então Josué falou ao Senhor […] e disse na presença dos israelitas: ‘Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Ajalom’. E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto não está escrito no livro de Jasher? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro” – Josué 10:12,13. » ↩︎

  4. «Latim para “grande obra”.» ↩︎

  5. É. Lévi, Dogma e Ritual de Alta Magia, p. 192 «da edição inglesa». ↩︎

  6. «Consulte a história da destruição de Sodoma e Gomorra em Gênesis 12.» ↩︎

  7. «Do latim “santuário mais interno”, o Santo dos Santos.» ↩︎

  8. Quanto maior for a nossa ignorância, mais intensa parecerá a iluminação. ↩︎

  9. «“E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio”, A Tempestade de William Shakespeare, Ato 4, Cena 1.» ↩︎

  10. «Hades pode se referir tanto ao mundo inferior da mitologia grega quanto ao deus que ali comandava.» ↩︎

  11. N.B. – O Shin é composto por três Yods, e seu valor é 300. ↩︎

  12. Dogma e Ritual de Alta Magia, pgs. 194-195 «da edição inglesa, consulte o Ritual, Cap. I., da 21ª edição em língua portuguesa da Editora Pensamento, tradução de Rosabis Camaysar. Todas as citações posteriores foram extraídas desta edição.» ↩︎

  13. Instrutor. ↩︎

  14. «Apelido do Bethlem Royal Hospital de Londres, o hospital psiquiátrico mais antigo do mundo, que opera desde 1247.» ↩︎

  15. Dogma e Ritual de Alta Magia, p. 196 «da edição inglesa, procure no Cap. I do Ritual↩︎

  16. Goetia, pgs. 1-3 «da edição inglesa de 1904. Consulte A Interpretação Iniciada da Magia Cerimonial.». ↩︎

  17. «HimSELF no original.» ↩︎

  18. «No original o exemplo usa moscas e o “Pó de Insetos Keatings”, um inseticida popular da época.» ↩︎

  19. «Consulte Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, Editora Maquinaria, 2022.» ↩︎

  20. Dogma e Ritual de Alta Magia, p. 195 «da edição inglesa, consulte Cap. I do Ritual↩︎

  21. «Mary Baker Eddy (1821-1910), uma líder religiosa americana, fundadora do movimento religioso conhecido como “Ciência Cristã”.» ↩︎

  22. «Frater Iehi Aour, Charles Henry Allan Bennett (1872-1923), que além de ter sido membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada, também se tornou um monge budista sob o nome de Bhikkhu Ananda Metteyya.» ↩︎


Capítulo traduzido e anotado por Alan Willms em fevereiro de 2024. Foto ilustrativa extraída de uma pintura de Henry Gillard Glindoni.

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