Sobre os Rituais de Iniciação da A∴A∴

Uma breve explicação dos rituais de grupo da Ordem.

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Sobre os Rituais de Iniciação da A∴A∴

Alerta de spoilers: discutiremos algumas das poucas instruções secretas encontradas na A∴A∴. Eu tentei não entrar em muitos detalhes, mas se você não quiser estragar nenhuma surpresa, talvez você não deveria continuar lendo este artigo!

A estrutura da A∴A∴ foi adaptada a partir da Ordem Hermética da Aurora dourada (Golden Dawn) e da segunda ordem dela, a Roseæ Rubeæ et Aureæ Crucis. Uma das mudanças mais significativas introduzidas pela A∴A∴ é que cada membro trabalha sozinho, conduzido por um único instrutor que é alguém que já alcançou pelo menos o grau imediatamente acima daquele de seu estudante.

“Quem conhece algum membro dessa Ordem como tal, nunca poderá conhecer outro, até que ele também tenha alcançado a maestria.” (Liber Causæ).

Embora os membros da A∴A∴ devam trabalhar por conta própria, sob seus instrutores, a Ordem têm casos pontuais de rituais em grupo: a cerimônia dos sete reis sagrados e os rituais de iniciação dos dois primeiros Graus[1].

É importante observar que os Graus da A∴A∴ são conquistados e não meramente concedidos por uma cerimônia. Os Rituais de Iniciação da A∴A∴ são a coroa de um trabalho em particular, eles marcam o progresso na jornada do aspirante e fornecem percepções e chaves adicionais para o trabalho interno dele, mas eles não concedem nenhum tipo de poder especial. Como é dito em Liber Causæ:

“Em todos os sistemas de religião deve-se encontrar um sistema de Iniciação, que pode ser definido como o processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida. Ninguém pode comunicar o conhecimento ou o poder para alcançar isso, que podemos chamar de Grande Obra, mas é possível que iniciados guiem os outros.”

As instruções oficiais os Rituais dos Graus da A∴A∴ são resumidos em Liber Graduum Montis Abiegni sub figurâ XIII, doravante chamado de Liber XIII.

Septem Regnum Sanctorum

(Certos Probacionistas são admitidos após seis meses ou mais ao Ritual XXVIII.) — Liber XIII

O Ritual XXVIII[2] é Septem Regnum Sanctorum, a cerimônia dos “Sete Reis Sagrados”. Não é uma Iniciação em si, mas está entre as três cerimônias de grupo encontradas na Ordem. Embora este ritual seja para poucos e seletos Probacionistas 0=0, isso está longe de ser uma honra, conforme as instruções explicam:

“(Probacionistas ociosos ou autoindulgentes devem receber uma tarefa adequada às suas naturezas. Se eles recusarem a tarefa por preguiça ou por um sentimento de que eles têm assuntos mais importantes (de acordo com o julgamento do Neófito deles), então o próprio V.V.V.V.V. 8=3 poderá informá-los com muita deferência que eles agora estão aptos para admissão no Mistério dos Sete Reis Sagrados.”

O aspirante ouve que ele foi escolhido. Ele é abençoado por oficiais representando os sete planetas. No final, a menos que ele diga que ele não busca tais bençãos, ele é posto em uma “masmorra” por sete horas, até ser resgatado por um oficial, que simbolicamente o coloca no trono da Terceira Ordem.

Throa ou Pyramidos

“No final da Probação ele passa pelo Ritual DCLXXI., que o estabelece como um Neófito.” — Liber XIII

Existem dois rituais atribuídos ao número 671 (DCLXXI):

  • Liber תרעא (throa, “portão”)
  • Liber Pyramidos

Liber Throa[3] é uma cerimônia de templo conduzida por dois oficiais, um Hiereus e um Hegemon. Esta cerimônia foi adaptada a partir do Ritual de Iniciação do Neófito 0=0 da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada, a ordem predecessora da A∴A∴. A preparação e realização desta cerimônia requer sete dias, conforme afirma Liber Collegii Sancti:

“Na próxima vez em que o sol entrará no signo em que ele foi recebido, sua iniciação pode ser concedida a ele. Ele se manterá livre de todos os outros compromissos por uma semana inteira a partir daquela data.”

Embora Liber Throa tenha sido projeto por Crowley e aprovado por Jones, os dois fundadores da Ordem, só existe a evidência de uma única ocasião onde esta cerimônia talvez tivesse sido usada para receber Victor Neuburg.

“Eu tinha o que era necessário para conferir a Neuburg o grau de neófito, tendo ele passado de maneira brilhante por seu ano como um probacionista. […] Após fazer Neuburg passar por esta iniciação¹, nós nos dirigimos para Londres.

¹ A preparação era de alguns modos desafiadora para o candidato. Por exemplo, ele tinha que dormir nu por sete noites sobre uma cama feita de tojo-comum.”

Em 1908, Crowley adaptou Liber Throa em uma cerimônia de auto iniciação chamada de Liber Pyramidos[4], utilizada por ele em sua consecução registrada em John St. John (publicado no The Equinox, Vol. I, No. 1).

Atualmente há muito debate sobre qual seria a cerimônia correta para admitir Neófitos na A∴A∴: Throa ou Pyramidos. No que diz respeito aos registros que vieram a público, Crowley não aplicava nenhuma destas para admitir seus candidatos. Desta forma, cada linhagem da A∴A∴ seleciona o seu próprio formato de admissão.

Crowley também desenvolveu uma adaptação adicional da fórmula do Neófito da O.H.A.D.: a Meditação “MMM”, Πυραμις (Pirâmide), em Liber HHH, que deve ser estudada e realizada como tarefa do Grau.

Cadaveris

“Finalmente ele passa pelo Ritual CXX., que o estabelece como um Zelator.” — Liber XIII

Após completar o trabalho do Grau de Neófito 1=10, o aspirante passe pelo Ritual CXX, Liber Cadaveris[5], “A Cerimônia da Passagem Através do Tuat” que o constitui um Zelator 2=9.

A cerimônia requer quatro dias de preparação:

“Na próxima vez em que o sol entrará no signo em 240° daquele em que ele foi recebido, seu avanço pode ser concedido a ele. Ele se manterá livre de todos os outros compromissos por quatro dias inteiros a partir daquela data.”

Enquanto Ritual Throa foi adaptado a partir do Ritual de Neófito 0=0 da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada (não confundir com o Grau de Neófito 1=10 da A∴A∴), Liber Cadaveris foi adaptado do Ritual de Adeptus Minor 5=6 da antiga Roseæ Rubeæ et Aureæ Crucis (a segunda ordem da Aurora Dourada).

Crowley também desenvolveu uma adaptação adicional da antiga fórmula do ritual de Adepto: a Meditação “AAA”, Νϵκρος (Cadáver), em Liber HHH, a ser estudada e realizada como uma tarefa do Grau.

Graus Conferidos por Autoridade

Crowley adaptou o antigo ritual do grau 0=0 para receber Neófitos 1=10, e adaptou o antigo ritual do grau 5=6 para receber Zelators 2=9.

Mas e quanto aos rituais dos graus intermediários, do antigo 1=10 a 4=7? De acordo com seu livro Confessions, Capítulo 20, Crowley dava maior valor àquelas duas cerimônias:

“Os rituais foram impressos no The Equinox, Vol. I, Números 2 e 3. Não há dúvidas de que aqueles de neófito e adepto são os genuínos rituais de iniciação, pois eles contêm as verdadeiras fórmulas. A prova disso é que é possível fazê-los funcionar por aqueles que os compreendem e sabem aplicá-los.”

Desta forma, quando ele estruturou os Graus da A∴A∴ com Jones, eles omitiram as cerimônias para os Graus intermediários:

“Nenhum ritual admite ao grau de Practicus, que é conferido pela autoridade quando a tarefa de Zelator é cumprida. […]

Nenhum ritual admite ao grau de Philosophus, que é conferido pela autoridade quando a Tarefa de Practicus é cumprida. […]

Finalmente, o Título de Dominus Liminis é concedido a ele.” — Liber XIII

Também é importante observar que a maior parte do trabalho do colégio externo inteiro da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada e parte do início do trabalho da Roseæ Rubeæ et Aureæ Crucis foram comprimidos no Grau de Neófito 1=10 da A∴A∴. Por exemplo, o trabalho com projeção astral e magia cerimonial mais complexa não aconteceriam até que o membro se tornasse um Adepto da antiga segunda ordem.

A Invocação do Sagrado Anjo Guardião

“Finalmente, o Ritual VIII o admite ao grau de Adeptus Minor.” — Liber XIII

Após completar o trabalho de Dominus Liminis, o aspirante é intitulado como um Adeptus Minor 5=6 (externo), e trabalha por conta própria com o Ritual VIII, o 8o Æthyr de A Visão e a Voz. O sucesso nesta prática marcará o avanço do aspirante para o grau de Adeptus Minor 5=6 (interno):

“E assim fará aquele que alcançará o mistério do conhecimento e conversação de seu Sagrado Anjo Guardião: […]

E seu Sagrado Anjo Guardião aparecerá para ele, sim, seu Sagrado Anjo Guardião aparecerá para ele, para que ele se envolva no Mistério da Santidade. […]

E mais do que isso não é necessário dizer, pois seu Anjo lhe terá rogado gentilmente e lhe mostrado de que maneira ele pode mais perfeitamente ser invocado. E para aquele que tem esse Mestre não há mais nada que necessite, desde que continue no conhecimento e conversação do Anjo, para que finalmente venha à Cidade das Pirâmides.”


  1. A Cerimônia da Festa do Equinócio também pode ser considerada como um ritual de grupo no caso do oficial que obtém a Palavra Equinocial da Terceira Ordem. No entanto, para os membros que recebem esta palavra já pronta de seu instrutor, a Festa do Equinócio é realizada solitariamente, e por isso eu excluí este ritual da lista. ↩︎

  2. Uma versão datilografada do Ritual XXVIII pode ser encontrada na Coleção Yorke do Instituto Warburg, Filme 1, NS94: The Rituals of A∴A∴ 1. ↩︎

  3. Uma cópia datilografada do Ritual Throa pode ser encontrada na Syracuse University, Aleister Crowley Papers. ↩︎

  4. Uma reprodução do manuscrito do Ritual Pyramidos pode ser encontrada em Commentaries on the Holy Books & Other Papers, publicado pela Weiser em 1998. O manuscrito original pode ser encontrado na Northwestern University, Colin Dew James Fund. ↩︎

  5. Uma cópia datilografada do Ritual CXX pode ser encontrada na Coleção Yorke do Instituto Warburg, Filme 1, NS94: The Rituals of A∴A∴ 2. ↩︎


Traduzido por Alan Willms em maio de 2020.