Sobre os Rituais de Iniciação da A∴A∴

Uma breve explicação dos rituais de grupo da Ordem.

Sobre os Rituais de Iniciação da A∴A∴

Alerta de spoilers: discutiremos algumas das poucas instruções secretas encontradas na A∴A∴. Eu tentei não entrar em muitos detalhes, mas se você não quiser estragar nenhuma surpresa, talvez você não deveria continuar lendo este artigo!

A estrutura da A∴A∴ foi adaptada a partir da Ordem Hermética da Aurora dourada (Golden Dawn) e da segunda ordem dela, a Roseæ Rubeæ et Aureæ Crucis. Uma das mudanças mais significativas introduzidas pela A∴A∴ é que cada membro trabalha sozinho, conduzido por um único instrutor que é alguém que já alcançou pelo menos o grau imediatamente acima daquele de seu estudante.

“Quem conhece algum membro dessa Ordem como tal, nunca poderá conhecer outro, até que ele também tenha alcançado a maestria.” (Liber Causæ).

Embora os membros da A∴A∴ devam trabalhar por conta própria, sob seus instrutores, a Ordem têm casos pontuais de rituais em grupo: a cerimônia dos sete reis sagrados e os rituais de iniciação dos dois primeiros Graus1.

É importante observar que os Graus da A∴A∴ são conquistados e não meramente concedidos por uma cerimônia. Os Rituais de Iniciação da A∴A∴ são a coroa de um trabalho em particular, eles marcam o progresso na jornada do aspirante e fornecem percepções e chaves adicionais para o trabalho interno dele, mas eles não concedem nenhum tipo de poder especial. Como é dito em Liber Causæ:

“Em todos os sistemas de religião deve-se encontrar um sistema de Iniciação, que pode ser definido como o processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida. Ninguém pode comunicar o conhecimento ou o poder para alcançar isso, que podemos chamar de Grande Obra, mas é possível que iniciados guiem os outros.”

As instruções oficiais os Rituais dos Graus da A∴A∴ são resumidos em Liber Graduum Montis Abiegni sub figurâ XIII, doravante chamado de Liber XIII.

Septem Regnum Sanctorum

(Certos Probacionistas são admitidos após seis meses ou mais ao Ritual XXVIII.) — Liber XIII

O Ritual XXVIII2 é Septem Regnum Sanctorum, a cerimônia dos “Sete Reis Sagrados”. Não é uma Iniciação em si, mas está entre as três cerimônias de grupo encontradas na Ordem. Embora este ritual seja para poucos e seletos Probacionistas 0=0, isso está longe de ser uma honra, conforme as instruções explicam:

“(Probacionistas ociosos ou autoindulgentes devem receber uma tarefa adequada às suas naturezas. Se eles recusarem a tarefa por preguiça ou por um sentimento de que eles têm assuntos mais importantes (de acordo com o julgamento do Neófito deles), então o próprio V.V.V.V.V. 8=3 poderá informá-los com muita deferência que eles agora estão aptos para admissão no Mistério dos Sete Reis Sagrados.”

O aspirante ouve que ele foi escolhido. Ele é abençoado por oficiais representando os sete planetas. No final, a menos que ele diga que ele não busca tais bençãos, ele é posto em uma “masmorra” por sete horas, até ser resgatado por um oficial, que simbolicamente o coloca no trono da Terceira Ordem.

Throa ou Pyramidos

“No final da Probação ele passa pelo Ritual DCLXXI., que o estabelece como um Neófito.” — Liber XIII

Existem dois rituais atribuídos ao número 671 (DCLXXI):

  • Liber תרעא (throa, “portão”)
  • Liber Pyramidos

Liber Throa3 é uma cerimônia de templo conduzida por dois oficiais, um Hiereus e um Hegemon. Esta cerimônia foi adaptada a partir do Ritual de Iniciação do Neófito 0=0 da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada, a ordem predecessora da A∴A∴. A preparação e realização desta cerimônia requer sete dias, conforme afirma Liber Collegii Sancti:

“Na próxima vez em que o sol entrará no signo em que ele foi recebido, sua iniciação pode ser concedida a ele. Ele se manterá livre de todos os outros compromissos por uma semana inteira a partir daquela data.”

Embora Liber Throa tenha sido projeto por Crowley e aprovado por Jones, os dois fundadores da Ordem, só existe a evidência de uma única ocasião onde esta cerimônia talvez tivesse sido usada para receber Victor Neuburg.

“Eu tinha o que era necessário para conferir a Neuburg o grau de neófito, tendo ele passado de maneira brilhante por seu ano como um probacionista. […] Após fazer Neuburg passar por esta iniciação¹, nós nos dirigimos para Londres.

¹ A preparação era de alguns modos desafiadora para o candidato. Por exemplo, ele tinha que dormir nu por sete noites sobre uma cama feita de tojo-comum.”

Em 1908, Crowley adaptou Liber Throa em uma cerimônia de auto iniciação chamada de Liber Pyramidos4, utilizada por ele em sua consecução registrada em John St. John (publicado no The Equinox, Vol. I, No. 1).

Atualmente há muito debate sobre qual seria a cerimônia correta para admitir Neófitos na A∴A∴: Throa ou Pyramidos. No que diz respeito aos registros que vieram a público, Crowley não aplicava nenhuma destas para admitir seus candidatos. Desta forma, cada linhagem da A∴A∴ seleciona o seu próprio formato de admissão.

Crowley também desenvolveu uma adaptação adicional da fórmula do Neófito da O.H.A.D.: a Meditação “MMM”, Πυραμις (Pirâmide), em Liber HHH, que deve ser estudada e realizada como tarefa do Grau.

Cadaveris

“Finalmente ele passa pelo Ritual CXX., que o estabelece como um Zelator.” — Liber XIII

Após completar o trabalho do Grau de Neófito 1=10, o aspirante passe pelo Ritual CXX, Liber Cadaveris5, “A Cerimônia da Passagem Através do Tuat” que o constitui um Zelator 2=9.

A cerimônia requer quatro dias de preparação:

“Na próxima vez em que o sol entrará no signo em 240° daquele em que ele foi recebido, seu avanço pode ser concedido a ele. Ele se manterá livre de todos os outros compromissos por quatro dias inteiros a partir daquela data.”

Enquanto Ritual Throa foi adaptado a partir do Ritual de Neófito 0=0 da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada (não confundir com o Grau de Neófito 1=10 da A∴A∴), Liber Cadaveris foi adaptado do Ritual de Adeptus Minor 5=6 da antiga Roseæ Rubeæ et Aureæ Crucis (a segunda ordem da Aurora Dourada).

Crowley também desenvolveu uma adaptação adicional da antiga fórmula do ritual de Adepto: a Meditação “AAA”, Νϵκρος (Cadáver), em Liber HHH, a ser estudada e realizada como uma tarefa do Grau.

Graus Conferidos por Autoridade

Crowley adaptou o antigo ritual do grau 0=0 para receber Neófitos 1=10, e adaptou o antigo ritual do grau 5=6 para receber Zelators 2=9.

Mas e quanto aos rituais dos graus intermediários, do antigo 1=10 a 4=7? De acordo com seu livro Confessions, Capítulo 20, Crowley dava maior valor àquelas duas cerimônias:

“Os rituais foram impressos no The Equinox, Vol. I, Números 2 e 3. Não há dúvidas de que aqueles de neófito e adepto são os genuínos rituais de iniciação, pois eles contêm as verdadeiras fórmulas. A prova disso é que é possível fazê-los funcionar por aqueles que os compreendem e sabem aplicá-los.”

Desta forma, quando ele estruturou os Graus da A∴A∴ com Jones, eles omitiram as cerimônias para os Graus intermediários:

“Nenhum ritual admite ao grau de Practicus, que é conferido pela autoridade quando a tarefa de Zelator é cumprida. […]

Nenhum ritual admite ao grau de Philosophus, que é conferido pela autoridade quando a Tarefa de Practicus é cumprida. […]

Finalmente, o Título de Dominus Liminis é concedido a ele.” — Liber XIII

Também é importante observar que a maior parte do trabalho do colégio externo inteiro da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada e parte do início do trabalho da Roseæ Rubeæ et Aureæ Crucis foram comprimidos no Grau de Neófito 1=10 da A∴A∴. Por exemplo, o trabalho com projeção astral e magia cerimonial mais complexa não aconteceriam até que o membro se tornasse um Adepto da antiga segunda ordem.

A Invocação do Sagrado Anjo Guardião

“Finalmente, o Ritual VIII o admite ao grau de Adeptus Minor.” — Liber XIII

Após completar o trabalho de Dominus Liminis, o aspirante é intitulado como um Adeptus Minor 5=6 (externo), e trabalha por conta própria com o Ritual VIII, o 8o Æthyr de A Visão e a Voz. O sucesso nesta prática marcará o avanço do aspirante para o grau de Adeptus Minor 5=6 (interno):

“E assim fará aquele que alcançará o mistério do conhecimento e conversação de seu Sagrado Anjo Guardião: […]

E seu Sagrado Anjo Guardião aparecerá para ele, sim, seu Sagrado Anjo Guardião aparecerá para ele, para que ele se envolva no Mistério da Santidade. […]

E mais do que isso não é necessário dizer, pois seu Anjo lhe terá rogado gentilmente e lhe mostrado de que maneira ele pode mais perfeitamente ser invocado. E para aquele que tem esse Mestre não há mais nada que necessite, desde que continue no conhecimento e conversação do Anjo, para que finalmente venha à Cidade das Pirâmides.”

  1. A Cerimônia da Festa do Equinócio também pode ser considerada como um ritual de grupo no caso do oficial que obtém a Palavra Equinocial da Terceira Ordem. No entanto, para os membros que recebem esta palavra já pronta de seu instrutor, a Festa do Equinócio é realizada solitariamente, e por isso eu excluí este ritual da lista. 

  2. Uma versão datilografada do Ritual XXVIII pode ser encontrada na Coleção Yorke do Instituto Warburg, Filme 1, NS94: The Rituals of A∴A∴ 1. 

  3. Uma cópia datilografada do Ritual Throa pode ser encontrada na Syracuse University, Aleister Crowley Papers. 

  4. Uma reprodução do manuscrito do Ritual Pyramidos pode ser encontrada em Commentaries on the Holy Books & Other Papers, publicado pela Weiser em 1998. O manuscrito original pode ser encontrado na Northwestern University, Colin Dew James Fund. 

  5. Uma cópia datilografada do Ritual CXX pode ser encontrada na Coleção Yorke do Instituto Warburg, Filme 1, NS94: The Rituals of A∴A∴ 2. 


Traduzido por Alan Michel Willms Quinot em maio de 2020.

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