O Puritano

Uma mosca certa vez sentou no eixo da roda de uma carruagem, e disse: “Que poeira que eu levanto!” Agora, um enxame de moscas veio – a quarta praga do Egito está sobre nós, e a terra está corrompida pela razão de seu fedor. Os valentes estão mortos, os gigantes não existem mais, pois os filhos de Deus não vêm às filhas dos homens, e o mundo está desolado, e a grandeza e a reputação se foram. Hoje as varejeiras azuis da decadência sentam zumbindo sobre a lenta roda da Fortuna, intoxicadas com a poeira dos mortos, e sugando a putrefação dos tendões dos caídos, e a podridão do ossuário do Poder.

Ó Razão! Tu te tornastes como um abutre banqueteando do cadáver de um rei, conforme ele flutua descendo as águas escuras do Aqueronte. Não! não uma tão grande visão, mas como uma idosa, uma mulher enrugada, nojenta e de seios flácidos, que na solidão de sua latrina acaricia e lambe a oleografia de um jovem nu. Ó Adônis, descanse nos braços de Afrodite, não busque a suja do inferno filha de Ceres, que cresceu hedionda no abraço perverso do Deus-Serpente, traidor do conhecimento do bem e do mal. Contemple sua barriga protuberante e seus seios murchos, descascados e cheios de sarna – “careca, podre, abominável!” Suas lágrimas não mais florescem nas anêmonas da Primavera; pois sua pureza a deixou, e elas se tornaram como o esgoto que desemboca para fora da popa de um navio cheio de porcos. Ó! Eros, voe, se apresse! Não aguarde o óleo despertador queimar Teu rosto, para que Tu não descubras que Tua querida cresceu hedionda e devassa, e que no lugar de uma bela donzela lá enlama uma lesma enorme alimentada pelos caules dos couves da decadência.

Ó Theos! Ó Pantheos! Ó Atheos! Deus triplo da irmandade dos guerreiros. Evoe! Eu Te adoro, ó Trindade de poder e majestade – Tu, Unidade silenciosa que governa os corações dos grandes. Ai de mim! que os homens sejam mortos, que seus tronos de ouro branco sejam esvaziados, e seus palácios de pérolas caiam em ruínas! A Grandeza e a Glória partiram, de modo que agora, nos campos Elíseos, as ovelhas de compreensão lanosa mordiscam os nabos verdes da razão e a palha nos ceifados campos de milhos do conhecimento. Agora tudo é racional, virtuoso, presunçoso e oleoso. Aqueles que lutaram com os sóis e as luas, e aprisionaram as estrelas do céu, e buscaram a Deus nos cumes das montanhas, e se dirigiram a Satanás nas entranhas da terra, nadaram nas águas escuras do Estige, e agora estão nas salas de Asgard e nos bosques do Olimpo, entre as joias de Havilá e as suavemente-desmembradas huris¹ do Paraíso. Eles nos deixaram, e em seu lugar vieram os milhares putrefatos, que usurparam os tronos brancos de sua compreensão, e os palácios dourados de sua sabedoria.

Corramos de volta para o berço da Arte e as fraldas de pano do Conhecimento, e assistamos aos pastores, entre as solitárias colinas onde a murta cresce e os sinos azuis tocam a inocência da Primavera, aprendendo com os seus rebanhos os mistérios da vida. ... Um lobo brota do mato, e um cordeiro é sufocado em seu sangue; então uma vara de carvalho é erguida, e Hermas despedaçou os miolos dentre aqueles brilhantes e verdes olhos. Ali agora a seus pés está a morte e o morto; e o homem se maravilha com o revirar das entranhas e o borbulhar do sangue. Veja! agora ele se reúne em seu rebanho, e os leva a uma caverna escura no declive da montanha; e quando a lua está no alto, ele parte, correndo para sua irmã, a Feiticeira, para buscar de seus bálsamos e ervas algo com que estancar sua ferida e amenizar os arranhões ardentes das garras do lobo. Ali, sob as estrelas, enquanto os morcegos circulam ao redor da lua, e o sapo pula pelo matagal, e as rãs respingam água no lago, ele sussurra para ela, quão verdes eram os olhos do lobo selvagem, quão afiadas suas garras eram, quão brancos eram seus dentes e, então, como as entranhas se retorciam no chão, e o cérebro rosa borbulhava o sangue para fora. Então, ambos estão em silêncio, pois um grande temor os preencheu, e se agacham tremendo entre a cicuta e as dedaleiras. Um pouco, e ela se levanta e, puxando o capuz negro sobre sua cabeça, viaja sozinha pela floresta sem trilhas, aqui e ali, iluminada pela lua; e, guiada pelas estrelas, ela chega à cidade.

Em uma pequena poterna da torre do castelo conhecido como o “portão dos amantes” ela para e assobia três vezes, e então, estridentes e claras notas como se fossem de muitas aves noturnas despertadas, chamou: “Irmão, irmão, meu irmão!” Logo uma corrente tiniu contra a porta de carvalho, e um pino ressoou atrás em seu ferrolho, e diante dela em sua camisa vermelha e seus calções de couro está seu irmão, o Carrasco. E ali, sob as estrelas, ela sussurra para ele, e por um momento ele treme, olhando profundamente nos olhos dela, então ele se vira e a deixa. Passado pouco tempo houve um ranger de correntes ao alto – uma coruja, despertou do galho acima, onde tinha estado a pestanejar empoleirada no ombro de um cadáver, moscas zumbindo na noite.

Logo ele volta, seus passos ressoando fortemente ao longo do corredor de pedra, e em seus braços ele carrega o cadáver de um homem jovem. ”Ele, minha pequena irmã”, ele arqueja, e por um momento ele escora sua pesada carga sobre a porta da poterna. Depois estes dois, a Feiticeira e o Carrasco, silenciosamente rastejam pela noite afora, de volta para a escuridão da floresta, carregando entre eles o adormecido Espírito da Ciência e da Arte dormindo no cadáver de um homem jovem, das quais as mechas de seu cabelo dourado cintilavam na luz da lua, e cujo em torno de sua branca garganta reluz uma ferida como que de cobra em vermelho, púrpura e negro.

Ali, sob os carvalhos em um senil dólmen eles celebraram sua missa da meia noite. ...”Olha você! Eu preciso muito dizer-te, eu te amo profundamente, assim como você está esta noite, você está mais desejável do que nunca esteve antes ... você esta construído como um jovem deveria estar. ... Ah! quanto tempo, quanto tempo eu tenho te amado! ... Mas hoje eu estou com fome, fome de você! ...”

Assim, sob o Ramo de Ouro sob o luar estava o anfitrião erguido, e o Pastor, e o Carrasco, e a Feiticeira partiram o pão da Necromancia, e beberam profundamente do vinho da bruxaria, e juraram segredo sobre a Eucaristia da Arte.

Agora, no lugar do dólmen está o hospital, e onde os trilitos se erguiam foi construído o “Hall da Ciência”. Vede! o druida deu lugar ao médico, e o cirurgião matou o padre seu pai, e com palavras devassas arrebatou o coração de sua mãe, a feiticeira. Agora em vez do círculo místico dos adeptos, temos a grande “Podre-e-Tola” escola da Loucura. Milagres são proibidos, mas ainda assim a palavra do homem faz o paralítico andar, e o aleijado levantar e correr. Os demônios foram banidos, e as possessões demoníacas não existem mais, mas agora o mais brando destes sábios a estão chamando de “histero-demonopatia” – o que é um jargão de sílabas dissonantes! Saul, quando se encontrou com Deus face a face na estrada empoeirada de Damasco, foi julgado com um distúrbio epilético do córtex occipital, e George Fox chorando: “Ai da sanguinária cidade de Lichfield!” está sofrendo de uma desordem do cólon; enquanto Carlyle está sujeita a secreções gastro-duodenais. No entanto, este último escreve: “Bruxaria e todos os tipos de trabalhos-Espirituais, e Demonologia, temos agora chamado de Loucura, e Distúrbios Nervosos; raramente refletindo que a nova questão ainda vem sobre nós: O que é a Loucura, o que são os Nervos? “ – De fato, o que é a Loucura, o que são os Nervos?

Certa vez, quando criança, eu fui picado por uma abelha enquanto dançava através das urzes, e um velho pastor me encontrou, e tirando um rolo de fumo negro de uma caixa de metal, mordeu um pedaço, e o mastigou, o cuspiu em minha perna, e a dor desapareceu. Ele não gastou uma hora torturante através do dicionário de seu cérebro para encontrar uma adequada “ite” com a qual aliviasse a inflamação e, em seguida, tendo cuidadosamente a classificado com outra, declarado que a dor fosse imaginária e que eu mesmo fosse um histérico-monomaníaco sofrendo de ilusões apiárias!

Hoje Hércules é um mito do sol, e assim também são Osíris e Baal; e não se pode levantar seu dedo mindinho sem algum porco fálico gritar: “Falo ... falo! Eu vejo um falo! Ó, que falo!” Fora com esta sexualidade espinhosa-de-igreja, esses obstétricos atávicos, estes intermináveis sobreviventes ​​e condições hipnoides, e todas essas superficialidades venéreas! Volte para os frutos da vida e a tesouraria do mistério!

Saltemos para além dos limites desses pedantes proxénetes de dicionário e este embaralhar das cartas sujas da Razão. Cessemos de roer este presunto-com-osso filosófico, e abandonando os abrolhos do racionalismo para domar os jumentos do Culto Sem-valor, e temos feito com tudo isto pseudociência, esta lógica-cortante, esta nivelada loquacidade dos velhacos, palhaços, estúpidos e lunáticos!

Ó Tu racionalista Boreas, como Tu arrotastes as ovelhas e com a flatulência de palavras de vento! Longe daqui com a ética e a moral dos escolásticos, esses pedantes pudicos cujas barrigas estão inchadas com o espinafre fervido de suas lucrativas virtudes; e acabaram alardeando as pílulas-de-farinha da linguagem na vesícula da terminologia médica! A visão de horror do maníaco é melhor do que isso, até mesmo o matadouro coagulado de sangue, pois é o sangue da vida; e a solidão do brejo distante é como uma taça de vinho eterna comparada com a espuma destes monges-clister, estes purgados-e-inchados puritanos, que soltaram diante de nós um gás malcheiroso de seus canais duodenais abarrotados-de-repolho.

Sim! deve passar por esta escola gastro-epiléptica de maníacos neurológicos, pois em pouco tempo vamos caçar com este avestruz mutante, e matá-lo enquanto ele enterra seu córtex occipital sob a pilha de lixo sarnento. Então a árvore dourada da vida deve ser replantada no Éden, e nós crianças deveremos dançar em volta dela, e banquetear sob as estrelas, fazendo a festa com o abandono do deserto e à liberdade das montanhas. Nós devemos nos tornar artistas, e na tempestade veremos uma mulher chorando, e nos raios e trovões o guerreiro armado que a esmaga contra seu peito peludo. Fora com as leis e trabalho. ... Vede! nos bosques de Pã a dança nos captura, e nos faz girar à frente! Ó! como nós ostentamos confidencialmente as taças e os odres de vinho, e como os cabelos emaranhados de nossas cabeças foram soprados entre os cachos da videira que escalam ao longo dos ramos dos plátanos do Jardim de Eros!

Mas ainda por um pouco de tempo a criança mística da Liberdade deve sentar-se chorando no escabelo da velha puritana Razão, e soletrar seus alfabetos vaidosos enquanto ela se agacha como um sapo em cima dela, babando, cheia de pensamentos perversos e anseios pela oleografia do jovem nu e o sigilo fedorento de sua latrina!


Traduzido por Wagner Fernandes

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